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sexta-feira, 22 de junho de 2018

Ciência e verdade

Desde a faculdade de Psicologia que cursei tenho observado diferentes formas de tratamento do que chamamos de Ciência. Há pessoas que falam de ciência como se falassem de uma religião: "a Ciência tem a verdade absoluta, inquestionável". Em geral, são pessoas que adoram as "evidências", porém têm uma visão um tanto limitada a respeito da cientificidade. Neste caso, associam "evidências" aos "fatos observáveis". Por esse motivo, o Comportamentalismo (Behaviorismo) ganhou tanto destaque na Psicologia.

Descontruir o mito de que só podemos fazer Ciência a partir de fatos observáveis é um desafio. A lavagem cerebral implantada pela filosofia materialista-objetivista foi tão grande que a muitas pessoas que se dizem pesquisadores(as) ou estudiosas não conseguem mais fazer a distinção entre Ciência e o materialismo. Tais pessoas partem do princípio de que o materialismo já é um consenso entre os "cientistas sérios" e, portanto, tudo deve ser construído a partir dele. Falta colocar a questão: quais as evidências do materialismo?

O materialismo é a ideia de que toda a realidade é constituída pelo mundo material, observável pelos nossos sentidos somáticos. A facilidade para aceitar tal "visão" é porque esta é uma "evidência" causada pela nossa percepção imediata. Afinal, trata-se do "mundo" com que interagimos a maior parte do tempo. O monitor à minha frente, o mouse que utilizo, o teclado, tudo muito concreto, objetivo e "experienciável".

Outra condição que sustenta a filosofia materialista é porque muitas pessoas sentem-se confortáveis com ela. Neste caso, há uma acomodação do(a) próprio(a) cientista, pesquisador(a), estudioso(a) com aquela linha ou filosofia que defende. Quem procura refutar o materialismo, de certa forma, sente-se desconfortável com tal abordagem. Nesse ponto vale considerar que, independente das afinidades ou escolhas pessoais, a realidade-verdade dos fatos segue indiferente. Nossas opiniões não mudam a estrutura da realidade. A água não deixa de molhar quem não gosta dela.

Há uma grande diferença entre ser um(a) cientista-investigador(a) da realidade e ser um "torcedor de time" ou defensor apaixonado de determinada linha do pensamento. Não há nenhum problema entre escolher a segunda opção, contanto não pense ser representante da primeira. Quando isso ocorre há uma verdadeira distorção dos propósitos de uma Ciência autêntica que será sempre a busca das verdades, sejam elas quais forem.

Estados alterados de consciência

No livro Transpersonal Psychologies, publicado em 1972, Charles Tart aborda a importância da pesquisa dos Estados alterados da consciência para se compreender o psiquismo. Por algum motivo (preconceito?) a Psicologia convencional ignora tais estudos. Durante todo o curso de Psicologia não ouvi uma vez algum professor mencionar tal conteúdo.



sábado, 4 de fevereiro de 2017

Criticidade e inconformismo sadio


Certa vez estive em um estabelecimento público com a finalidade de conseguir um documento. Eram umas 10h30 da manhã e o responsável disse que não atenderiam aquele horário pois eu precisaria chegar às 5h da manhã a fim de pegar uma senha de atendimento. A incoerência daquela comunicação transparecia em razão da pequena quantidade de pessoas (umas 3 ou 4) que haviam no local. Naquele instante surgiu aquele estado de indignação e perguntei se não havia agendamento pela internet, procedimento comum em outros locais. A funcionária disse que antes havia mas fora suspenso. Pela sua resposta entendi que tal procedimento vinha "de cima" na hierarquia da empresa. Neste momento, indaguei: "Está tudo indo pra frente e a cabeça dessa gente está retrocedendo?". Os funcionários esboçaram um sorriso tímido e percebi que também estavam insatisfeitos com aquela situação. Continuei: "Tenho pena de vocês, com tanta tecnologia disponível, terem que fazer esse trabalho todo!". Foi aí que um deles disse: "Só um instante", entrou numa sala e voltou, dizendo: "Pode entrar aqui, consegui adiantar o serviço". Na sala haviam dois funcionários atendendo umas poucas pessoas e duas fileiras de cadeiras vazias. Resolvi o que precisava, agradeci a todos e fui embora satisfeito.

Fiquei pensando na quantidade de pessoas que deixam de ser atendidas porque simplesmente escutam "qual é o procedimento" e se conformam com a resposta.


O fato é que um certo nível de criticidade pode ser muito saudável para as relações humanas. Porém, a questão é acertar na dosagem. A sua ausência pode gerar acomodação, conformismo, complacência, raiva internalizada, dentre outros sentimentos.

Na repressão da crítica, é comum ocorrer a conformação e a indignação interna, sem haver a exteriorização do pensamento. Neste caso, a pessoa pode estar condicionada a pensar de modo "obediente", sem espaço mental para a contestação, com medo da "transgressão social" ou de "burlar as regras" estabelecidas. Pessoas que tiveram uma educação muito repressora podem manifestar tais comportamentos.

Seria possível uma completa ausência da crítica? Ou ela não deixaria de ocorrer em um certo nível, internalizada, ainda que não fosse elaborada e verbalizada? Há, no caso, uma supressão da crítica ainda em seu estado inicial, de pré-formulação.

Por outro lado, a crítica não deve nos levar ao nível da impertinência, do assédio, da impetulância, da intrusão, daquele indivíduo de difícil convivência ou de conflitividade permanente.

A questão é saber usar a crítica com empatia. É possível expressar uma insatisfação sem carregar nas tintas, sem pensar mal de alguém. A sua intenção transparece na fala. No caso relatado não estava criticando o trabalho dos funcionários mas a burocracia no qual estavam inseridos. Pode parecer algo teórico mas a intenção da crítica faz muita diferença, é perceptível na interlocução.


Como ser crítico/contestador sem passar do ponto? Em primeiro lugar é preciso ter educação e equilíbrio pessoal. Uma palavra grosseira, o uso de xingamento, imediatamente coloca tudo a perder. Neste caso, possivelmente, o segurança local seria acionado, e não discordaria deste procedimento. As relações sociais precisam ser administradas dentro de algumas regras de boa-convivência. 

Portanto, além do conteúdo da crítica, há o modo, a forma, a maneira. De nada resolve o conteúdo justo e a forma inadequada.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Decaimento da autocrítica

A autocrítica é um atributo importante para o desenvolvimento da personalidade humana. Na biografia de Peter Longerich sobre Goebbels, ministro da propaganda nazista, o autor destaca o decaimento da autocrítica nos diários do político: "Se as passagens autocríticas são a parte mais interessante dos primeiros diários, a ausência quase completa de autocrítica nos últimos volumes talvez seja o que mais chama atenção". (Ed. Objetiva; p.19).

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

"Eu, Daniel Blake" (Crítica)

O que há de errado com Eu, Daniel Blake? Uma das respostas pode estar na pergunta: "Para quê serve um filme?" Retratar a realidade ou transcendê-la? Se você prefere a primeira opção talvez tenha gostado do filme. A meu ver, a limitação dele está justamente em retratar a realidade mas não superá-la, em apontar a patologia social (a burocracia) e não mostrar alternativas ou soluções. Há uma incompletude, neste sentido.

O personagem, em alguns momentos, tenta burlar e transcender a patologia mas sem êxito. O filme direciona sua crítica para o sistema social burocrático. Isso fica evidente pela forma "zumbificada" dos personagens burocráticos retratados.

Há decerto, ao menos, duas situações que merecem destaque:

1) quando Blake se levanta no departamento do governo para reclamar do descaso em relação à mãe solteira, Katie;

2) quando Daniel, já saturado do empurra-empurra burocrático, parte para um protesto gráfico

Porém, ambas as tentativas de superar a patologia não têm êxito e a mensagem final é pessimista: "o sistema é esse mesmo, não adianta lutar contra ele que tudo continuará igual". Faltou: ressaltar a condição do inconformismo social sadio, o pensar out-of-box; sair da crítica social e entrar na autocrítica. É sempre relevante pensar: "O quê uma consciência mais lúcida faria nesta condição?".

Faz pensar que alguns autores são bons para contar uma estória, mas não tem habilidade (vontade?) para solucioná-la. Ou seria falta de mais ousadia para sair do conformismo? A impressão é que o filme bate asas mas não voa.

Podemos fazer a pergunta: um filme deve apenas conformar-se com o real ou transcendê-lo? Se a intenção é levantar um problema, trazer uma situação para o debate já terá sido válido. Mas, particularmente, gosto de sair do cinema com aquele sentimento positivo de ascenção onde um problema, uma situação insatisfatória foi desvelada e depois superada.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A irracionalidade do materialismo

Do ponto de vista existencial, a tese do materialismo e, portanto, da finitude da consciência é irracional. A questão é que, neste caso, teríamos que assumir que determinadas pessoas foram "eleitas", desde o nascimento, a terem uma vida melhor do que outras.
Eis alguns exemplos:

1) Uma pessoa nasce numa família estruturada que lhe dá condições da melhor formação educacional, cultural e social. Outro indivíduo nasce no ambiente mais inóspito, em condições desfavoráveis.

2) Um indivíduo nasce gênio superdotado, com inteligência acima da média; outro tem retardo mental, com extrema dificuldade de raciocínio e elaboração de pensamento.

3) Um sujeito, ao final da vida está feliz e sereno, com a sensação de dever cumprido e tem um desfecho tranquilo, durante o sono, em atmosfera de paz. Já outra pessoa sofre acidente e falece de modo trágico, deixando uma série de incomprensões e incompletudes para trás.
Conclusão: poderíamos enumerar inúmeros exemplos que mostram a deficiência do materialismo e da ideia de que a existência da personalidade termina junto com a matéria.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Jung

Lendo Jung é possível perceber o nível do alcance superior de suas ideias se comparado a outros psicólogos históricos. Mas ainda tem aquele hábito de usar a ideia de inconsciente para depositar uma série de fenômenos inexplicados.